HOMOSSEXUALISMO E FREUD
HOMOSSEXUALISMO E FREUD
Helci Rodrigues Pereira
“A vida que não se examina não vale a pena ser vivida”.
Sócrates
Sigmund Freud, médico vienense, no início de nosso século, vislumbrou a homossexualidade como resultado de conflitos havidos durante o desenvolvimento psicossexual, tentando explicar o homossexualismo masculino como resultado de exagerada ligação edipiana com a mãe.
Entendia o mestre que, nessa hipótese, na puberdade, muitos jovens, num processo inconsciente, ante a incapacidade de renunciar à genitora como objeto sexual, chega a identificar-se com ela, tendendo a “transformar-se” nela e a procurar objetos a que possa manifestar afeição, carinho e amor, e de que possa cuidar na forma como foi querido e cuidado.
Referentemente ao lesbianismo, Freud entendia que, depois da fase fálica, a mulher sentir-se-ia impelida a trocar o clitóris pela vagina como órgão sexual e a mudar, igualmente, o objeto do seu amor, quer dizer, trocar a mãe pelo pai. Nessa difícil, para não dizer crítica, dupla passagem, que exige um enorme esforço psíquico, viria a jovem a identificar-se com o pai ou com a mãe virilizada e regredir a uma virilidade inconfundível com a fase fálica infantil.
Tal teoria, se não teve um maior aprofundamento da questão, pelo menos contribuiu decisivamente para o esclarecimento de vários aspectos relacionados com o comportamento humano, bem como concorreu para retirar o debate em torno do homossexualismo do terreno pura e simplesmente da moral ou da religião.
Até final do século XX, contudo, a psicanálise via o homossexualismo como uma patologia, mesmo que tal ponto de vista venha sendo bastante contestado. Presumivelmente, a maior parte dos profissionais de psicologia, da psiquiatria e da psicanálise via o homossexual como uma pessoa que ainda não amadureceu perfeitamente, sendo, por isso, incapaz de um relacionamento pleno com o outro sexo.
É de observar-se que, com a alteração havida, em 1985, no Código Internacional de Doenças Mentais (CID), o homossexualismo deixou de ser considerado como uma doença mental.
Entre os especialistas que reconhecem na homossexualidade um padrão anormal de comportamento, existe o entendimento de que os homossexuais “assumidos” são razoavelmente satisfeitos com sua identidade sexual e também capazes de desenvolver relações mais estáveis com seus parceiros, enquanto que os homossexuais “heterófobos”, por incapacidade de relacionamento íntimo com o sexo oposto, encontram expressão de sua sexualidade no homossexualismo.
É de ver-se que tais categorias não são aceitas universalmente e a discussão dos fatores determinantes da homossexualidade continua em aberto.
As colocações freudianas, no mínimo, tiveram o mérito de colocar a questão da homossexualidade em sua íntima relação com os motivos humanos, demonstrando que o impulso sexual, que é freqüentemente imaginado como uma necessidade uniforme, central e exigente na personalidade, não existe fora de um sistema de disposição.
Isto significaria que o sexo, em todas as suas expressões, aceitáveis ou não, está complexamente ligado com todas as formas de crenças, gostos, inibições e hábitos adquiridos, já que o nosso sistema nervoso não conserva, de maneira conveniente, o impulso sexual em compartimento separado dos demais fatores com que se funde.
Daí, quando se diz que determinado homem ou determinada mulher são homossexuais está-se falando de uma realidade existencial intimamente ligada a uma história motivacional de difícil compreensão, desde que existem inúmeras formas de homossexualidade: explícita, oculta, ativa, passiva, compulsiva, sublimada, difusa, específica, altruísta, amável, sadista, protetora, temporária, duradoura, etc., tantos quantos são os indivíduos cuja necessidade sexual tenha sido ligada ao seu próprio sexo.
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Helci Rodrigues Pereira é Pastor, Advogado, Professor,Escritor e também autor dos livros "Pastorais", "O Ser Humano - Reflexões" e "Expressões do Recôndito".
