O REMÉDIO DO AMOR
30/05/2010 18:01O REMÉDIO DO AMOR
Helci Rodrigues Pereira
Fala-se muito em terapêuticas, hoje em dia. A mais importante é a do amor
Difícil é a tarefa de ajudar um delinqüente. Um grande problema para os ajudadores é a natural hostilidade daqueles contra estes. Eles foram tão rejeitados, condenados, incompreendidos, maltratados, e se tornaram de tal forma revoltados que, embora tenham grande parcela de culpa pelo seu estado, nutrem um profundo ódio pelas pessoas consideradas normais e ajustadas.
O resultado é que essa ira contra a sociedade que contribuiu para o seu estado delinqüente, ele tende a expressar de qualquer maneira, até mesmo contra pessoas que querem dar-lhe apoio, como pais, professores, amigos, psicólogos, orientadores, conselheiros espirituais, assistentes sociais, etc.
Há mais de sessenta anos, Homer Lane provou a possibilidade de cura do delinqüente pelo remédio do amor. Muitas crianças violentas, anti-sociais, envaidecidas por serem salteadoras ou ladras, tornaram-se pessoas ajustadas, decentes e bem integradas socialmente, depois de conviverem num ambiente de amor e compreensão, num reformatório rural da Inglaterra.
O caminho da recuperação do delinqüente é o do Amor, que procura, com ele próprio, descobrir o motivo, muitas vezes escondido, inconsciente, que o tem conduzido aos descaminhos da vida; do amor que o considera, antes de um perverso, um doente necessitado que, com sua linguagem desviada, implora simpatia/ajuda.
Por certo que a repressão pura e simples não ajuda e nem é solução para o problema. Não adianta combater o “doente” e nem mesmo a “doença”, sem ir às causas, à origem, à etiologia.
O tratamento da delinqüência há de ser preventivo e a longo prazo, e deve começar pela tomada de consciência do problema por parte dos adultos, pela sua própria moralização, para que tenham condições de bem orientar, bem educar com seu exemplo pessoal, propiciando, assim, às novas gerações, o clima de realização humana e favorecimento da consecução de suas metas.
Comunga conosco Luiz Angelo Dourado, quando, em Raízes Neuróticas do Crime, escreve: “A prevenção do delito depende da educação dos pais e das pessoas responsáveis pela assistência às crianças, de vez que a personalidade do adulto se modela na infância, no chamado período formativo. É nesse período que se adquirem as noções básicas para a adaptação social, mediante restrições dos instintos anti-sociais, conformando-se às exigências da própria realidade” .
Assim como a família é um grande contribuinte para a delinqüência, para o seu assombroso crescente, como já tentamos, anteriormente, demonstrar, é a família, também, a maior esperança na prevenção e no tratamento do problema.
Essa tem sido a conclusão de sociólogos, psicólogos e outros cientistas sociais e do comportamento, através de estudos e pesquisas: “A solução definitiva só poderá ser encontrada no Lar” (Rogério Sorvillo Vieira).
Muitos, talvez, nem imaginem, nem desconfiem de que as sementes do mau proceder dos seus filhos sejam encontradas na sua própria conduta caracterizada pela preocupação excessiva com os bens materiais ou com as fugacidades da vida em detrimento dos valores morais e espirituais; pelas desonestidades patentes; pelos vícios e, sobretudo, tantas vezes, pela falta de afeto para com os filhos.
A luta contra a delinqüência tem de começar, de ser encetada pela educação no lar e na escola; por uma educação formadora, sem falhas clamorosas, com o apoio de mestres maduros, sem leviandades e moralmente habilitados para a eficiente preparação das mentes e dos caracteres dos que lhes são confiados, a fim de que possam, as crianças, enfrentar a realidade agressiva e violenta, ameaçadora e terrível, com condições de saírem ilesas da refrega.
Cremos que o problema da delinqüência há de ser minorado, senão solucionado, a partir dos esforços da família e da escola. Evidentemente, para obter uma resposta positiva e alcançar tal meta, a educação deverá ser aquela de profundos valores éticos e morais, isenta das deturpações encontradiças na moderna educação.
Algo tem sido feito com vistas à prevenção. Muitas medidas são providências paliativas, mas têm dado resultados animadores. A Dinamarca conseguiu diminuir as práticas anti-sociais dos seus jovens mediante “Clubes Juvenis”, orientados por entidades públicas; em Oslo, Noruega, foi de sucesso uma patrulha de voluntários ex-vândalos, jovens de 14 a 18 anos guardando os parques para protegê-los do exibicionismo juvenil e zelando pelas fontes dos parques e pelos bancos dos bondes.
Existem, hoje, técnicas de identificação precoce da tendência à delinqüência para se promover meios de prevenção. Essa prevenção tem se mostrado mais eficaz quando realizada no período de vida até antes da pré-adolescência, não sendo muito eficientes as medidas preventivas no período que se segue.
Que se poderia fazer, no ambiente da família, para prevenir a delinqüência, no sentido de não se fornecer às crianças elementos predisponentes? Entendemos que seja dar maior importância à atmosfera do lar. Manter, o quanto possível, um clima de amor, de alegria, de tolerância, de compreensão e de positivos incentivos.
Irretorquível que o desenvolvimento normal da criança depende da nutrição que ela recebe no recesso do lar. Desenvolvimento harmonioso, homeostático da mente e do corpo será conseguido com os elementos nutrientes da amor, da paciência, da firmeza e, sobretudo, da fé.
Importante, também, é o tempo que se dá aos filhos. A lufa-lufa, a azáfama, a agitação neurotizante do dia-a-dia impedem os pais de darem atenção/tempo aos filhos e de ouvirem a respeito de seus pequenos problemas. Como resultado, a criança cresce sentindo-se sozinha, carente de afeto. Vinga-se desse abandono psicológico nas pequenas travessuras, desenvolvendo, às vezes, um elemento favorecedor da delinqüência.
Belisário Marques – Educador – sugere os seguintes comportamentos que contribuem para a formação de filhos ajustados e prevenidos contra os desvios:
1 – Definir e delimitar o que deseja alcançar com seus métodos de disciplina.
2 – Chegarem os pais a um denominador comum quanto à maneira de educar/disciplinar os filhos.
3 – Saber estabelecer limites/restrições comportamentais.
4 – Aceitar e permitir que seus filhos sofram as conseqüências de seu comportamento.
5 – Compreender que cada criança é diferente das outras.
O retrocitado autor apresenta alguns princípios que, observados pelos pais, ajudarão a evitar que seus filhos venham a parar numa clínica ou na cadeia: 1 – Dê poucas ordens; 2 – Pense antes de dizer NÃO; 3 – Não volte atrás; 4 – Ignore o erro cometido; 5 – Recompense o comportamento desejado na criança; 6 – Mantenha uniformidade de conduta; 7 – Evite tomar partido nas brigas dos filhos; 8 – Nunca compare um filho com o outro; 9 – Jamais compare seu filho com alguém de fora; 10 – Ressalte o sucesso e chame a atenção para o êxito do seu filho.
Esculápio (pseudônimo), em artigo sobre menores carentes (Revista Saúde), propõe, para a prevenção da delinqüência, uma assistência à vida da família com pessoal competente no setor de psicologia e assistência social, que possa ajudar a programar a vida familiar, oferecendo-lhe orientação geral através de um Serviço de Assistência Social.
Delgado de Carvalho sugeriu como fundamental, na prevenção, o trabalho da educação como reconstrução da experiência no sentido de “cuidar com especial carinho dos que, nos meios sociais desfavoráveis, podem adquirir, por experiências mal dirigidas ou prematuras, defeitos mentais que os podem predispor à delinqüência”.
Não olvidemos: o que a criança aprende nos seus primeiros anos tem muito mais avir-se com sua formação e seu comportamento do que o que ela aprende no decorrer de sua vida, depois.
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Helci Rodrigues Pereira é Pastor, Advogado, Professor,Escritor e também autor dos livros "Pastorais", "O Ser Humano - Reflexões" e "Expressões do Recôndito".
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