FORÇA NA VIDA

FORÇA NA VIDA
Helci Rodrigues Pereira

“Quando se ama, perde-se o direito de ser feliz sozinho”.  Quesnel

“O amor é fogo que arde sem se ver; é uma ferida que dói e não se sente; é um contentamento descontente; é dor que desatina sem doer”, 
cantava Renato Russo, inspirado em poesia de Camões.

O problema do amor é uma temática sobre a qual mais se tem escrito, nos últimos tempos. Pena que se lhe tenha dado um tratamento um tanto superficial, simplório, e que se tenha exaltado mais o seu aspecto puramente genésico e sensual sem u’a mais séria exploração do seu conteúdo profundo. É este tratamento sério que lhe vamos emprestar.

Verdade é que muitos reduzem o amor a uma função natural sem atentarem para o seu sentido mais abrangente e global como uma grande força na vida humana, como uma realidade também de ordem espiritual.

Multivariadas têm sido as interpretações do conteúdo do amor, este gigante da alma, na terminologia do festejado e saudoso Emílio Myra Y López. Por alguns, é considerado o ponto de partida de todas as grandes e nobres ações; por outros, um sentimento puramente carnal e ambicioso. Empédocles o tinha como uma força a presidir ao mundo; Heráclito, o sentimento fundado nos contrários, enquanto Epicuro o reduziu a uma simples força física, no que parece seguido por não pequeno número.

O amor é um “sentimento que impele as almas para o que se lhes afigura ser belo, verdadeiro, justo, constituindo o objeto de nossa afeição”.

O amor é descrito como “emoção agradável, duradoura, renovável, marcada pela identificação mútua entre ( ... ) pessoas e também pela atração mútua”.

Define-se o amor, ainda, como “estado afetivo duradouro provocado por uma disposição mental, dirigindo a conduta humana no sentido do impulso a determinado objeto”, como um “sentimento regulador da atividade humana”.

Ressalta-se, destarte, que o amor é um sentimento de relação que vai muito além da simples ligação erótica. É uma relação mais profunda, uma verdadeira “ligação espiritual”.

O amor foi muito bem conceituado por López, em seu Quatro Gigantes da Alma, como uma das “ingentes forças que animam e abatem, que nos impulsionam e anulam, que elevam e rebaixam, que nos beatificam e envilecem ( ... ) gigante que, sob pele suave e rosada, seu olhar triste, sua efébica aparência, oculta energias capazes de vencer os seus três outros companheiros” (referindo-se ao medo, à ira e ao dever).

López alcançou a profundidade incomensurável do amor, ao considerá-lo “um processo complexo e contraditório que não pode ser situado nem limitado concretamente em um determinado setor conceitual”.

O amor existe numa forma bifásica, num processo de fluxo e refluxo vital, expressando-se de uma só vez em posse e cessão, como diz López, num “recíproco intercâmbio de energias que altera essencialmente o habitual tom existencial do indivíduo”.

Encarecemos que o amor deva ser encarado não simples, direta e exclusivamente em sua feição genésica, fecundante, mas sim em termos de energia na personalidade, estímulo para aproximação, para o relacionamento positivo humano que propicia o desempenho de papel na sociedade.

Hazo, autor de The Idea of Love (A Idéia do Amor), referido por Henry Clay Smith, em seu Desenvolvimento da Personalidade, coordenou um estudo do conceito do amor, feito por vinte e cinco filósofos. Naquele estudo consideraram o uso do termo pelos mais variados filósofos, desde os mais clássicos até aos mais modernos, chegando aos seguintes resultados: 

1 – A idéia de amor é a mais difícil das que foram submetidas a uma análise dialética, mais difícil do que a idéia de liberdade, de progresso, de justiça e de felicidade.
2 – Nas várias concepções de amor, há, sempre, as seguintes características: amor sempre implica em interesse, seja, “ninguém pode ser indiferente ao que é amado”; amor implica em ação, seja, não apenas se ama, mas se faz algo a respeito; amor implica em preferência, seja, “o que é amado é singularizado”; amor implica em “um bem potencial ou atual, ou em si mesmo ou como meio para algum fim bom”.

Amor-incorporação é perfeitamente definido, na Enciclopédia Brasileira Globo, em termos de “energia espiritual ( ... ) que integra a personalidade no plano existencial pela percepção e animação das relações humanas e seus valores, das forças psicofisiológicas que irmanam o “eu” ao “outro”, e das razões profundas e algo misteriosas que nos incorporam ao mundo como elemento criador de vida e de bem”.


Helci Rodrigues Pereira é Pastor, Advogado, Professor,Escritor e também autor dos livros "Pastorais", "O Ser Humano - Reflexões" e "Expressões do Recôndito".

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