SOCIEDADE E DELINQÜÊNCIA

SOCIEDADE E DELINQÜÊNCIA
 
Helci Rodrigues Pereira

O meio social pode favorecer o desenvolvimento do comportamento delinqüente.

O problema da influência social na produção de delinqüentes, na predisposição à delinqüência, é um tanto complexo e difícil porque ao tempo em que parece óbvia a influência do meio na conduta delinqüente, sendo esta uma resposta ao meio, não temos muito como explicar por que, de dois jovens do mesmo ambiente sócio-econômico-cultural, um dá para roubar e outro não, e por que acontece que muitos jovens, vivendo numa “subcultura delinqüente”, não se tornam delinqüentes, enquanto outros, que não vivem num tipo de cultura daquele jaez, acabam seguindo o caminho tortuoso? Por certo, iríamos encontrar explicações para tal problemática se pudéssemos conhecer todas as variáveis do problema, de muitas das quais podemos até desconfiar.

Provavelmente, uma dificuldade para apreciação do fato é que o indivíduo não é apenas produto do meio, mas um ser moldado na interação com o meio, sendo inúmeros os fatores influentes na interação.
Diríamos, então, que o meio não produz delinqüência, mas pode favorecer o desenvolvimento de tal comportamento.

Miller, chama a atenção para a força cultural das classes menos favorecidas que se constituem geradoras de delinqüência, na medida em que, nessas culturas de classes inferiores, desenvolve-se a idéia de que “criar problemas”, “arranjar caso”, são fonte de prestígio. É a cultura da valentia que apologiza o “cabra macho”, que enaltece o “rapaz topa-tudo”, o “disposto”, o “intimorato”, o “trancado”, o “bom-de-briga”, que acha sua representação no gangster de Hollywood, no detetive de Dallas ou no cowboy do Alabama; é a cultura da valorização da “esperteza”, da capacidade de botar p`ra trás os outros, de saber ludibriar sem ser enganado por ninguém.

O indivíduo que se desenvolve, cresce numa cultura assim e recebe toda a sua gama de influência, claro, facilmente envereda no caminho da delinqüência, a depender, evidentemente, de uma série de outros fatores que o influenciem na mesma ou noutra direção.

Caroline B. Rose, em sua INICIAÇÃO AO ESTUDO DA SOCIOLOGIA, registra alguns estudos específicos sobre delinqüência juvenil, interessados em descobrir o que, na sociedade ou na educação, torna certas crianças suscetíveis de aprender tal comportamento. Em síntese apertada, dois desses estudos:

O primeiro, feito por Vincent Clark sobre UNMARRIED MOTHERS (Mães solteiras), no qual o autor da pesquisa conseguiu isolar alguns fatores que impedem as moças de internalizarem os valores sexuais tradicionais, ficando mais propícias a se influenciarem, pelos valores desvairados.

O segundo estudo foi realizado por Albert Cohen, em 1955, sobre DELINQUENT BOYS – THE CULTURE OF THE GANG (Jovens delinqüentes – A cultura da gang). A conclusão foi que:   

“A participação em quadrilhas é, preponderantemente, uma característica dos homens de classe inferior. Eles ingressam nas quadrilhas delinqüentes da mesma forma e pelos mesmos motivos que os meninos de classe média se fazem escoteiros. Evidentemente, conseguem com isso a mesma satisfação pessoal que os outros meninos obtêm no escotismo. A cultura (significados e valores) da quadrilha é, porém, maligna e anti-social. Seus membros se racionalizam numa “cultura desviante”. Se a cultura da família e da escola tivessem sido firmemente internalizadas, a socialização da quadrilha teria se tornado impossível. Nas classes “inferiores” há uma socialização familiar inadequada, ou a sua cultura está bem próxima da cultura de quadrilha. Há uma grande correlação entre a participação numa quadrilha e o fracasso escolar. Como os meninos ingressam na escola muito antes de ingressarem, tipicamente, numa quadrilha, podemos concluir que a escola não foi capaz de socializar bem”.



Helci Rodrigues Pereira é Pastor, Advogado, Professor,Escritor e também autor dos livros "Pastorais", "O Ser Humano - Reflexões" e "Expressões do Recôndito".

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