HOMO ECONOMICUS

HOMO ECONOMICUS
Helci Rodrigues Pereira


Segundo Eduard Spranger, psicólogo alemão, no complexo da personalidade amadurecida há, pelo menos, seis estruturas básicas que se coordenam para a constituição total do ser: intelectual, estética, social, política, religiosa e econômica.

De acordo com a preponderância de cada um, a dessas estruturas, o ser humano será melhor reconhecido como homem teórico, homem estético, homem social, homem político, homem religioso e homem econômico.

É de cuidar-se, cada um, para que a preponderância de quaisquer delas não seja tal que tenda a anular as demais expressões do ser, sob pena de, faltando a harmonia e integração desejáveis do eu, fique este mutilado, psicologicamente coxo.

O homo perfectus, Jesus Cristo, homem padrão, foi uma personalidade exemplar, bem estruturada. Nele não havia, tão somente, o homo religiosus, nem o homo filosoficus, mas encarnou, também, o homo faber, o homo sapiens e o homo economicus.

O economista o é porque o homem é um ser valorativo, que capta valores, que compreende e distingue o bem do mal, o valor do desvalor. Como homem, sabe que há uma escala hierárquica de valores humanos: valores úteis ou materiais; valores espirituais, que são superiores aos materiais; valores estéticos, que se referem à harmonia, à simetria, ao equilíbrio; valores lógicos, na dimensão da verdade e do erro e valores éticos, no plano da conduta.

Os valores lógicos estão no plano mental; os estéticos, no plano sensível; os vitais, no plano da vida em geral; os úteis, no plano da matéria, e os éticos englobam tudo na conduta.

O perigo jaz na inversão, na tentação de radicalizar e colocar determinados valores acima dos demais, de forma absoluta. Foi o que fez Carl Marx, quando colocou a economia acima de tudo e a defendeu como infra-estrutura e condicionamento de tudo mais, da própria moral e da religião. Ele defendeu o primado da Economia na ordem social, contrariado, entr’outros, por Stamler, no campo do Direito, que tentou defender a tese de que o Direito é que constitui a forma plasmadora do econômico (ambos tinham parte da razão).

Afirmamos, riba, que Cristo encarnou o homem econômico. Ele não foi contra a riqueza e o progresso, sim contra a avareza; não foi contra a moeda, sim contra o amor, o apego desmedido, desordenado, ao dinheiro; não foi contra a propriedade privada, sim contra o latifúndio de poucos em detrimento dos que nada tinham.

Cristo não mantinha preconceitos contra a Economia ou contra as coisas materiais. Basta lembrar que, das trinta e oito parábolas contadas por ele, dezesseis trataram de bens materiais. Foi ele que deu uma grande aula de economia, quando, após fartar uma grande multidão, mandou que recolhessem e guardassem os doze cestos de sobras.

Não há contradição entre Cristianismo e Economia. Há, sim, entre cristianismo e economização, permiti o neologismo para fazer referência à nefasta hipertrofia do economismo em detrimento de outros aspectos importantes da vida humana.

O mal da economização é que modifica a escala de valores. Muitos admitem, francamente, a acumulação de riquezas como padrão de sucesso, de tal sorte que a pessoa humana passa a valer não por seus dotes morais, por seu caráter, por seus talentos, mas por suas posses, pelo seu capital. Pelo que tem, não pelo que é.


Helci Rodrigues Pereira é Pastor, Advogado, Professor,Escritor e também autor dos livros "Pastorais", "O Ser Humano - Reflexões" e "Expressões do Recôndito".

Pesquisar no site