O DIREITO DE SER
O DIREITO DE SER
Helci Rodrigues Pereira
“A primeira lei da natureza é a tolerância, já que temos todos uma porção de erros e fraquezas”.
Voltaire
“SER OU NÃO SER, EIS A QUESTÃO!", bem dizia Shakespeare.
É tido como direito fundamental de natureza individual, constitucionalmente reconhecido, o da “liberdade“, sem distinção de qualquer natureza.
Isto quer dizer que ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer, a ser ou deixar de ser qualquer coisa, senão quando a lei assim o determine; que todos, indistintamente, devem receber tratamento humano, e poder manifestar livremente as suas idéias, os seus conceitos, respeitando, evidentemente, o pensamento dos demais; e que ninguém pode ser discriminado em razão de suas crenças religiosas, de sua orientação sexual e de sua filosofia de vida pessoal não atentatórias aos direitos dos demais.
Nada de discriminação sob qualquer título! Nada de opressão a quem quer que seja, por motivo algum!
Nada justifica a violência, as atitudes provocantes, adversas ou hostis, e muito menos a discriminação, em nossas inter-relações pessoais, a qualquer pretexto.
Os direitos humanos são fundamentais, em relação a todas as pessoas, independentemente de etnia, credo religioso, consciência política, filosófica ou sexual.
Isso significa que ninguém deve ser molestado, nem preterido, no convívio social, em virtude de, no exercício de seu livre arbítrio, adotar tal ou qual sistema de vida, de doutrina ou de prática comportamental.
Uns assumem, na Economia, um posicionamento pelo qual o Estado seja mais intervencionista no regramento das atividades econômicas, outros, porém, defendem um Estado menos intervencionista.
Uns entendem como básico, para o seu existir, o exercício da fé, outros se confessam agnósticos.
Uns são partidários de uma família originada do casamento convencional, outros preferem a vida a dois, um casamento tácito, sem qualquer burocracia ou ritual.
Uns se realizam na prática da heterossexualidade, outros se entregam à colaboração entre duas pessoas do mesmo sexo, objetivando a obtenção do prazer.
Evidentemente, pelo princípio aqui esposado, ninguém deve se sentir obrigado ou constrangido a considerar como boa ou positiva qualquer forma de comportamento que o seu próximo considere como tal.
O ser humano pode ser o que deseje, a depender do que se passa no seu escrínio. O que não pode é exigir que os demais sejam o que ele é, ou adotem o posicionamento que ele, no usufruto de sua liberdade e dos seus direitos fundamentais, considere bom e adequado para si.
O homem goza da prerrogativa de ser o que deseja, não lhe sendo dado, contudo o direito de exigir que os demais aquiesçam ao modus vivendi pelo qual veio a optar, na fruição e pleno gozo de sua liberdade de querer-ser.
O grande problema é que muitas vezes queremos impor aos demais a nossa cosmovisão, o nosso conceito de vida, e até as nossas práticas de qualquer natureza; queremos que os outros considerem como bom aquilo que achamos que seja; desejamos não apenas que nos deixem à vontade para ser o que somos por opção, sem discriminação, sem pressão, sem perseguição, mas queremos muito mais: Pretendemos, sempre, que as pessoas ao nosso redor nos apóiem naquilo que fazemos, nos dêem o seu aval.
Os direitos humanos hão de ser encarados de tal óptica que nos conduzam à situação em que, sem recriminação, sem censura, sem moléstia, todos nós possamos ser o que somos, em nossas próprias medidas, sem prejuízo social e sem exigirmos que os outros nos aplaudam ou nos imitem.
Helci Rodrigues Pereira é Pastor, Advogado, Professor,Escritor e também autor dos livros "Pastorais", "O Ser Humano - Reflexões" e "Expressões do Recôndito".
